CARTA ABERTA AO YAGO

Por ALFREDO GARCIA-BRAGANÇA

Aquela estreita faixa de terra, ali na lateral do gramado, vai ter uma ausência sentida a partir de janeiro de 2016, quando não estiveres mais por lá.

Aquele grito que ficava entalado na garganta da torcida, quando te encaminhavas para ajeitar a bola de forma carinhosa, paciente, serena, para bater uma falta ou um pênalti, vai permanecer como um vir-a-ser, porque também não estarás mais lá.

Nenhuma criança, daquelas tantas que em legião te acompanhavam na entrada ao gramado de jogo, estenderá mais a mão a ti com o boneco Pikachu do lado.

A ausência é um jeito da gente anar mais ainda aquele que deixa saudades. Ainda mais quando a gente fala de futebol.

Sim, eu sei que é apenas um jogo, e que tudo se resume em dois tempos de quarenta e cinco minutos, com mais um pouco da prorrogação.

Sim, eu também sei que a bola é apenas uma esfera de couro ou material sintético, e que muita gente duvida que se possa fazer arte com os pés. Mas, pensemos que um violão é apenas um violão nas mãos de um leigo, mas quando cai nas mãos de um virtuoso, a gente sabe que a arte está ali, mesmo sem saber bulhufas dos rudimentos de História da Arte.

YAGO1

A bola nos teus pés sabia da arte que ias engendrar.

O aparente desleixo na condução da redonda.

O drible curto, como no futebol de salão, aqueles milímetros que viravam uma alameda.

O chute seco, as elipses da bola no ar, fugindo das mães espalmadas do goleiro que queria abraçá-la em vão. O gol.

Nunca mais essa alegria praqueles que te viram surgir, menino magrela, num jogo importante. Aquele jeito de moleque que está jogando futebol entre os adultos e daqui a pouco vai pra casa, logo que a mãe chamar pra ir tomar banho.

YAGO2Aquele jeito sempre moleque de jogar alegre, pra frente, indo pra cima do adversário, respeitando, mas buscando uma fresta – entre as pernas, entre dois zagueiros – para fazer a festa da galera – o gol que gritado junta várias vozes de homens, mulheres, meninos e meninas numa só voz.

Não vai mais ter pulos, danças, abraços na margem do gramado, como se toda alegria – neste país e num Estado de tão poucas alegrias – tivesse sempre que ser compartilhada.

Não vai ter mais aquele choro verdadeiro, de atleta que é também torcedor, sentado no centro do gramado, lamentando a perda do título ou a desclassificação.

Aquela faixa estreita de gramado, ali pela lateral-direita, lá onde as firulas ganham as entradas dos zagueiros raivosos, lá onde a torcida gritava “vai, vai”, devia ter alguma inscrição.

Algo do tipo: “por aqui passou, driblou, festejou, fez gols um dos maiores laterais deste Estado”.

bola_na_redeMas a gente sabe que isso é apenas sonho do cronista, que, afinal, todos dizem que “rei morto, rei posto”, que “o show não pode parar”, e que outros virão te substituir.

A gente sabe de tudo isso, viu?

Mas a gente quer dizer apenas um modesto OBRIGADO, Glaybson Yago Souza Lisboa, moleque bom de bola que a torcida aprendeu a chamar de YAGO PIKACHU, pelos gols, pelas alegrias e até mesmo por ter chorado junto com a gente, pois a gente sabe que é nas derrotas que se revelam os grandes campeões, como você.

2 Comentários

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2 Respostas para “CARTA ABERTA AO YAGO

  1. Andrea Gomes

    Tão perfeita esta carta, que nos emociona!

  2. Maria Izabel Benone

    Parabens ao Alfredo Garcia por tão belissima mensagem.. só mesmo vinda de tão brilhante escritor!

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