AS VOZES

 

 Por  Alfredo Garcia

1.

Eu levo as vozes dentro do bolso da calça jeans, pai. Aposto que o senhor riria de mim se fosse antigamente.

Pois é fato. Hoje, no aparelho celular, cabem o telefone, a calculadora, a agenda, TV, despertador e o rádio, entre outras coisas.

O rádio… Eu sei que o senhor gostava muito de ouvir rádio. A senhora também, né, mãe?

Eu puxei aos dois, então. Minha mais remota imagem eu guardo num velho álbum: lá estou eu, com um rádio de pilha ao lado, no berço.

O bebê ouve rádio.

  2.

O rádio veio trazendo as vozes pra vida da gente. Foram tantas, hein, pai? Não é mesmo, mãe?

Foi nele que o senhor ouviu as primeiras (e tristonhas) notícias do Golpe Militar de 1964.

As prisões dos amigos. As vozes também falavam de coisas tristes, né, pai?

A vida é vida por isso mesmo: cabedais de tristeza de um lado, alegrias do outro.

Uma das alegrias do menino que fui, eu lembro bem: em 1974, a voz de Minnie Riperton vindo pelo velho rádio Transglobe Philco de seis pilhas grandes, cantando “Loving You”:

Loving you is easy ‘cause you’re beautiful

And making love with you is all I wanna do

Loving you is more than just a dream come true

And everything that I do, is out of loving you.

3.

A senhora também gostava muito de rádio, né, mãe?

Eu me recordo que, assim que a gente veio do interior pra capital, a senhora aumentava o volume pra ouvir aquele programa na hora do almoço!

Como era mesmo a música do Ari Lobo…

Ah! Era assim: É uma tristeza / Uma infelicidade / Ouvir meu nome na patrulha da cidade.

Ah! Saudade, mãe, saudade de tanta coisa que o peito não dá conta de carregar.

Saudade maior das vozes de vocês, pai e mãe.

Outra música que a senhora cantava desafinada, acompanhando pelo rádio, era “Ilha do Marajó”

Recebi um telegrama

Do meu velho pai

Me pedindo pra voltar

O meu pai é fazendeiro

Na ilha do Marajó

No estado do Pará

que muito depois soube que era de Zito Borborema.

4.

Por fim, como quase tudo na vida, as vozes vão sumindo ou se encantando.

No rádio, algumas vezes, pela noite, revivem por instantes.

Como vocês agora, aqui falando comigo.

Eu sei que vim sem avisar.

Mas é assim que a gente deve fazer com quem a gente ama: aparecer do nada.

Pra ver um riso de espanto na cara da pessoa.

Pra ter o aconchego do abraço inesperado.

Vou acender as velas e deixá-las aqui no batente.

Elas já lacrimejam suas lágrimas de cera.

Sua bênção, pai.

Sua bênção, mãe.

 

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