DIÁLOGOS INTERTEXTUAIS

HISTÓRIAS FORTUITAS

Autores: Alfredo Garcia-Bragança e Machado de Assis.

Editora: Populivros:

Preço: De R$ 20 a 25.

Onde achar: LIVRARIA DA FOX, na Dr. Moraes, entre Serzedelo e Mundurucus.

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Por Joel Cardoso, pesquisador sobre as Poéticas da Modernidade (com ênfase nas relações criadas entre palavra e imagem (ex: Teatro e Cinema), Pós-Doutor em Artes (Cinema e Literatura) e Doutor em Letras (Literatura Brasileira e Intersemiótica).

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Há coisas que, pelo menos aparentemente, não se explicam… Acontecem pura e simplesmente. E só vamos entende-las – se é que as entendemos – muito, muito tempo depois… A vida se encarrega disso. Aproxima pessoas, mostra similaridades, assim como também – inevitavelmente – aponta divergências… A entrada de Alfredo Garcia em minha vida é uma das coincidências felizes do ocaso, do destino, da sorte (não sei bem ao certo)… Ele me chegou, logo na minha estreia como docente do Curso de Letras do Campus Universitário de Bragança, no início de 2002, através de alunos que queriam trabalhar com ele no TCC… Éramos poucos professores de literatura, naquela época…
Eu, meio desconfiado, sem dizer sim, mas também sem dizer não, deixei as coisas acontecerem… Melhor se precaver… Esse ilustre desconhecido… Quem era esse autor? Como escrevia? Sobre que temas discorreria em seu trabalho? Não seria, por parte dos alunos, mais um entusiasmo bairrista (tão comum ainda hoje na nossa região), segundo o qual tudo o que vem da terra deveria ser valorizado? Eu ainda não conhecia o autor pessoalmente… Só alguns anos mais tarde, na Feira do Pan-Amazônica do Livro, iria conhecê-lo… O encantamento se solidificou… e, desde então, somos amigos… Amigos de uma amizade prazerosa, positiva, de compartilhamentos estéticos e artísticos, trocas em que ambos crescemos…

Voltando à proposta do TCC, eu, questionamentos à parte, comecei a ler a obra indicada para o trabalho: “O livro de Eros”… Um libreto singular, lembro-me bem, de capa vermelha, como convém ao tema… A cada página ia me surpreendendo… Quem era esse escritor? Qual a sua formação? Como ele lidava – a la Freud – tão bem com esse lado interior do ser humano, o erotismo? Fui me deixando seduzir… Fiquei, aliás, completamente seduzido… Deslumbramentos à parte, comecei a me interessar pelo autor… Desde então, venho acompanhando a sua trajetória de escritor, de artífice da palavra… Trabalhar com literatura por estas plagas é transitar entre egos inflados, cada qual gritando e tentando se impor… Alfredo, não… É discreto… é ético… está “sempre na dele”… Sobrevive às tempestades porque sabe se preservar… E o que nele fala mais alto é o seu poder de criação…
Quem milita no terreno da palavra – esse árduo e competitivo território – sabe que escrever é uma tarefa ingrata!… Como criadores, não há como evitar, sofremos a tão propalada “Angústia da Influência” (Harold Bloom)… Dialogar com o passado cultural… Assimilá-lo… Sentir o peso da tradição… Devorar antropofagicamente esse passado… Lidar com isso e, apesar disso, e ainda assim, ousadamente criar…

GARCIA.FOTO

É isso que faz Alfredo Garcia-Bragança (foto à direita) em seu libreto “Histórias Fortuitas”…
Três contos apenas… Três contos dele, e três outros de Machado de Assis… Dialogar com Machado, nome canônico da literatura ocidental, é, sem dúvida, uma responsabilidade…As comparações se estabelecem de imediato. Não importa o lado que o leitor opte por ficar… E nem há, na realidade, por que optar… Machado é Machado e Alfredo é o nosso Alfredo Garcia-Bragança…O nosso escritor da terra, no entanto – e é bom que se frise! -, tira isso tudo de letra… Seus três contos, “Olhar de peixe morto”, “Tergiversações de um pássaro” e “História Singular” são esplêndidos… Dialogam, intertextualmente, com os textos da tradição, dando novos rumos, implementando à trama novas ambientações, imprimindo novos estímulos literários, outras intencionalidades. É claro que aí entra a criatividade do escritor, o seu longo traquejo com a palavra, a sua experiência de vida, o seu trabalho ininterrupto com a arte da palavra (tanto na prosa como na poesia)…

Do ponto de vista didático, o livro também é primordial e altamente recomendável. Contrapor leituras diferentes, propondo textos com temas similares, é, no processo comparativo que de imediato se instaura, educar a sensibilidade do receptor. É formar leitores… é investir no gosto pela leitura literária… Porque, ao contrário do que preconiza o ditado popular, em arte – e Literatura é uma das mais nobres Artes -, gosto é o que se discute… Mostrar pontos comuns, mas, principalmente, os pontos divergentes é uma das funções docentes de quem milita no ensino da literatura. Uso – de propósito – o verbo militar… Pois, não deixa de ser uma militância… E, para isso, o libreto “Histórias Fortuitas” é modelar. Somos, nós também, textos entre textos… Os textos dialogam entre si ininterrupta e intermitentemente.

fortuitas

Quisera estar ainda trabalhando com o Ensino Fundamental e com o Ensino Médio… Como seria interessante poder levar estes textos e propor mil atividades a partir deles… Os professores precisam sair da mesmice… Temos que valorizar textos bons… E se estes textos são de autores da região, melhor ainda!
Para finalizar, queria, ainda, falar algo sobre a dedicatória que Alfredo Garcia fez no compêndio que me presenteou…Ele escreve: “Ao Joel Cardoso”, estes contos de um mestre, Machado, e deste aprendiz. Alfredo!”
Que lindo, amigo!… Lírico, poético, singelo, simples e, principalmente, humilde… Somos todos, sempre, aprendizes… Aprendemos com tudo e com todos… Quando perdermos a nossa capacidade de aprender, o que será que nos resta? Mas, na arte de escrever, você, amigo, de há muito, já deixou de ser aprendiz…

Obrigado, Alfredo!…
Você é uma grata surpresa e uma referência em minha vida…
Beijos n’alma…
Com carinho, respeito e admiração, sempre.

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