A OFERTA (Ou: A vingança do cliente)

“Eleanor Rigby” invade o ambiente, Um toque curto, depois crescente. O homem atende o celular.

  • Boa tarde, senhor! Como o senhor está? Tudo bem?

  • Humpf! – resmunga o homem.

  • Bom, senhor, desculpe-nos se estamos o incomodando…

  • Incomodando. Sem o “o”.

  • … mas o motivo desta ligação é que vamos estar…

  • Estamos. É o certo. Direto, tá?

  • Certo… Então, estamos lhe oferecendo o que há de melhor em…

  • Quem disse?

  • ?

  • Quem disse que vocês são “o que há de melhor”? Sua mãe pode dizer que você é o cara mais bonito do mundo, mas viocê sabe que isso é mentira, né?

tele1

  • Bom,senhor…

  • Sim?

  • Esta é uma oportunidade que o senhor não pode recusar!

  • Mesmo?

  • Veja só…

  • Não posso.

  • ?

  • Pelo celular – a não ser que usemos Skype – eu só OUÇO, nunca VEJO.

  • Modo de dizer, senhor.

  • Sim?

  • Bom, para qie o senhor possa usufruir das nossas ofertas, que eu tenho certeza o senhor não recusará, precisamos confirmar os seus dados.

  • OK.

tele2

Silêncio. Dos dois lados.

  • Senhor?

  • Estou ouvindo.

  • Os seus dados!

  • Estou aguardando.

  • ?

  • Você disse: “ precisamos confirmar os seus dados”. Diga!

  • Mas…

  • Confirmar é você dizer uma coisa daí e eu responder daqui.

  • Bom, senhor, devido ao seu excelente relacionamento com nossa empresa, yenho o prazer de lhe informar que o senhor foi sorteado entre milhares de pessoas para receber nossa proposta irrecusável que é…

  • Não quero.

  • Como senhor?

  • Só tô aceitando empréstimo de vinte mil reais pra cima, e que eu não deva pagar, ou com prazo de cem anos, e também doações em espécie a partir de dois mil reais.

  • Mas, senhor…

  • Tá vendo como a proposta de vocês não é IRRECUSÁVEL? Eu recusei!

  • Mais alguma cois que eu possa ajudar você?

  • Humpf! – grunhiu o sujeito do telemarketing.

    O homem desligou o celular. No painel de atendimento do consultório médico as vozes robóticas se multiplicavam. Uma mulher elegante veio sorrindo na direção dele.

  • Vamos, amor? Demorei muito no exame?

  • Nadinha.

  • Alguém me ligou?

  • Só uma ligação errada. Um engraçadinho. Mas me livrei dele logo. Vamos tomar um café com tapioquinha?

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