FILHO DORMINDO

Para Alfredo Garcia Neto, Frederick Hesse e Glenda Corrêa

 

É quase manhã e o homem entra no quarto do filho pisando macio no silêncio.

Parece um balé sorrateiro a forma como ele anda nas sombras. Bailarino com sobrepeso, ele toma cuidado para não despertar o dono do espaço.

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Se existe dúvida de quem é que manda por lá, esta se dissipa logo na entrada quando se vê a estante repleta de bonecos de heróis de histórias em quadrinhos – alguns que fizeram a cabeça do homem na infância remota dele -, de miniaturas de artistas da música pop, de humoristas, escritores; os sete dinossauros de plástico alinhados como se fosse um time pré-histórico a entrar em campo, etc.

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O homem segue com seu balé nas sombras, com seus olhos que custam a se acostumar com a penumbra da antemanhã. Olha para o filho. De repente, “não mais que de repente” (como ele lembra que declamava estes versos de Vinícius de Moraes) é a infância dele, esguio espião de araque, que volta: os pés descalços no chão sem asfalto, os jogos de futebol no meio da rua, os banhos nos igarapés, a meninice sem televisão e com uma coleção de seis livros de Monteiro Lobato presenteados pela Vó, que morava numa terra distante, o Rio de Janeiro. A delícia de ler aqueles livros, um por um, estendendo o prazer por dias, à sombra da goiabeira, bem perto do tucumanzeiro.

Chega perto da cama onde o filho descansa. O homem prende a respiração, agora pesada. Na manhã que ainda se forma no horizonte, ele ouve o respirar pausado do filho. Olha para o rosto do jovem. Volta o olhar para os objetos. Tudo naquele quarto tem vida, história. Cada centímetro daquele quarto de dormir é repleto de memórias, desses fugazes momentos que compõem o mosaico daquilo que chamamos de Vida.

O homem lembra que, até pelo menos os onze anos de idade, ele nunca dormira em cama. Quando foi dormir em uma cama pequena passou a noite com insônia: temia cair e se machucar. Coisa de criança. Os filhos dele nunca tiveram tal problema.

E ali estava seu filho, parte da vida dele, aquele que por muito tempo ele vestiu; levou à parada de ônibus para que chegasse cedo à escola; alimentou. Aquele com o qual ele chorou naquelas noites em que o peso da angústia do futuro é como uma âncora lançada no coração. Lembrou de novo do Vinícius: “Filhos? / Melhor não tê-los!/ Mas, se não tê-los, / como sabê-los?”.

Foi então que veio chegando a manhã e um orvalho teimoso, magicamente, insistiu em cair nos olhos cansados e insones do homem que entrara no quarto do filho na véspera do Dia dos Pais. O homem estendeu os dedos para limpar a água salgada do orvalho que caíra na blusa do pijama e foi saindo como entrara no quarto: bailarino das sombras a pisar na maciez do silêncio.

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1 comentário

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Uma resposta para “FILHO DORMINDO

  1. João Cunha

    PAI D’ ÉGUA POETA!!! BRAVO!!! FELIZ DIA DOS PAIS!!!

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