DIÁLOGOS SOBRE A VIDA POR CIMA DO MURO

Por GLEICE GARCIA*.

Ao nosso vizinho Seu Zeca, que aos 87 ANOS é um exemplo de sabedoria e disposição!

 

Eu embaixo, na minha área de serviço, ele no telhado de sua casa fazendo reparos.

– Bom dia, vizinho!

– Bom dia, vizinha!

– O senhor está bem?

– Tô muito bem vizinha! A senhora sabe? Fiz esses dias um bando de exames e tá tudo normal!

– Que bom vizinho! Então está tudo ótimo com o senhor?

– Vizinha, ótimo, ótimo, não… O meu problema é filho! A senhora conhece aquele ditado: ”Filho criado, trabalho dobrado”.

– Sim! Ouvi muitas vezes minha avó dizer isso. Na verdade não entendia. Então ela completava: “Ah! Minha filha, quando os meus males forem velhos, os teus serão novos”.

– E hoje a senhora já sabe o que ela queria dizer?

– Hoje entendo os dois dizeres e muitos outros que ela usava.

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– A senhora sabe, vizinha, eu não entendo esse pessoal de hoje. Ganham bem, mas vem sempre aqui e dizem: “Papai me arranje aí cinquenta reais?”. Fazer o que, né vizinha? Eu arranjo; eu dou, não empresto, até porque eu sei que não vão me devolver.

– É, vizinho, casa de pai e mãe é sempre um lugar certo para se buscar ajuda não é?

– Vizinha, a senhora sabe, eu tenho 87 anos e a Nadir, minha mulher, tem 84. Nós somos casados há 65 anos. Nunca brigamos. Tivemos nove filhos. É muito filho pra dar conta, né vizinha ? Mas nunca deixei faltar nada pra eles e sempre ajudei a Nadir em casa, porque eu acho vizinha que o homem casa não é pra ter uma empregada. Os dois têm que se ajudar. A mulher também não pode ficar fazendo corpo mole! Mesmo com esse monte de filho nunca cheguei em casa do trabalho e encontrei a Nadir desarrumada. Nunca! Ela estava sempre limpa e cheirosa! Hoje essas mulheres casam e não se cuidam mais. Cada um tem que fazer a sua parte. Por isso ajudo a Nadir em tudo, mas filho, vizinha…

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– E o que o senhor está fazendo aí em cima?

-Ah, vizinha! A gente paga pra tirarem uma goteira e eles abrem três. Então eu venho fazer o serviço bem feito! Se chegar um filho meu aqui e me ver fazendo isso, olhe, ainda vai brigar comigo e dizer: “Papai, o que o senhor tá fazendo aí? O senhor não precisa fazer isso!” Agora eu lhe pergunto vizinha vem algum filho, genro ou neto fazer esse conserto? Vem nada vizinha! Então eu faço!

– Cuidado vizinho!

– Que nada, vizinha! Tá tudo certo! Ah, vizinha, antes que eu me esqueça: em outubro vão fazer um festão pra comemorar o aniversário da Nadir. Disseram que eu não tenho que dar nada. Eu vou lhe dar um convite pra senhora ir com seu marido. Vai ser num salão. Vocês vão? Nós gostamos muito de vocês!

– Poxa, vizinho, vamos sim. Vai ser uma honra! Eu também gosto demais de vocês dois. Cadê a vizinha? Tá pra missa?

– Não, já chegou. Agora ela tá ali na cozinha fazendo o arroz.

– Vizinho, posso fazer uma foto sua?

– Pode sim vizinha! (Aí ele capricha na pose).

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* GLEICE GARCIA é licenciada em LETRAS pela UFPA. Professora do ensino fundamental e médio há mais de 20 anos. Esta é sua primeira crônica publicada. As fotos também são dela.

 

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