O BURACO

buraco6Começou como se fosse um arranhão imperceptível na epiderme do asfalto. Uma pequena ferida dessas a qual não damos a mínima importância. No dia seguinte já estava alargado do tamanho de uma tampa de uma panela pequena. Mais dois dias e o buraco já era do tamanho de um bueiro. Mas foi só quando o buraco já ultrapassava os dezesseis metros quadrados que as autoridades tomaram conhecimento dele.

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Interromperam o trânsito na principal avenida cidade. Um tumulto dos diabos. Chamaram todos os engenheiros, geólogos, conhecedores internacionais de buracos, o escambau. Ninguém se entendia. Enquanto se discutia a gênese do buraco, os trabalhadores sofriam com a demora nos ônibus, com os atrasos no trabalho, com tudo. Já havia os que, durante a semana, levavam suas malas e dormiam nos locais de trabalho.

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A discussão sobre o que, como, quando, onde, quem e por que movimentava os bares próximos ao buraco e toda a cidade, agora chamada de Hole City.

– Isso é coisa da OPOSIÇÃO! – rechaçava um velho adesista, ante  a acusação de incompetência e inoperância atirada nas fuças da situação que governava Hole City e o Estado.

– Que nada! Foi uma fatalidade! – argumentava outro tomando seu décimo-terceiro chope.

– É O FIM DO MUNDO! – irrompia no ambiente, a gritar, um adepto da Igreja Desesperancista dos Últimos Dias.

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E assim caminhava, com congestionamentos de dez quilômetros de extensão em seu trânsito, a cidade. Havia quem dissesse que o buraco fora aberto durante a madrugada por empresas que engarrafavam água dita “mineral”, que depois do episódio estavam ficando ricas vendendo as garrafinhas de meio litro a dez reais no megaengarrafamento diário. Cada um inventava uma versão.

O certo é que foi preciso força policial, spray de pimenta, tiro, porrada e bomba para expulsar de lá, primeiro alguns sem-teto que teimavam em querer morar no buraco – que a essa altura já estava do tamanho das quatro pistas da avenida principal -; depois, integrantes da Igreja Desesperancista dos Últimos Dias, que ali queriam ficar acampados à espera do Salvador Desesperado, que viria do Buraco, segundo previsto em uma profecia do livro sagrado deles, o Boeotian Book.

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Para encurtar a história, a cidade, que antes era conhecida como Metrópole das Mangueiras, agora se tornou em definitivo HOLE CITY. O Parque do Buraco é uma das atrações de lá, ouso dizer a maior de todas. O trânsito? Bom, continua lento, sem solução.

3 Comentários

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3 Respostas para “O BURACO

  1. Juraci Siqueira

    Paidégua! Esse buraco ainda vai dar pano pra muitas mangas. Está merecendo, além dessa crônica, uma “Ode ao Buraco”.

    • Ruth Farias

      Caro Alfredo, gostei mesmo de “O BURACO”, gostei tanto que sugiro seja publicado maciçamente nos meios de comunicação, caso você ainda não o tenha feito, é claro. Sua crônica, embora com gosto de humor, é séria e responsável, pois representa a indignação dos que já não suportam os desmandos na gestão pública de Belém. Parabéns!

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