UM CONTO DE NATAL

Para Jorge Miguel Guimarães Garcia, irmão que já se foi há alguns Natais

 

A lua estava murcha. Lá fora chovia. As luzes de Natal das outras casas piscapicavam. Dentro das outras casas havia árvores de Natal. Provavelmente naquela noite alguns meninos e meninas daquelas casas receberiam presentes, alguns caros, outros nem tanto. Mas receberiam.

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O menino maior, magro como um espeto, olhou de lado para o menor e sorriu. Os dois usavam cabelo à moda militar. Era quase uma obrigação usar aquele corte naquele tempo. O menino maior falou devagar, estalando a língua como se escolhesse as palavras:

  • Tá lindo lá fora.

O outro menor só balançou a cabeça.

  • Cortaram a nossa luz de novo né?
  • É…
  • Mãe disse que foi descuido…
  • Foi…
  • Mas eu acho que faltou dinheiro…
  • Liga não. Logo fica tudo bem. Olha as luzes.

Lá fora começou a tocar numa vitrola uma canção de Natal. O menor comentou:

  • Papai gostava dessa música.
  • Gostava, não: ele gosta. Ninguém sabe se ele morreu.
  • E cadê ele?
  • Por aí.
  • Onde?
  • Pelo mundo. Um dia volta.
  • Mas já é o segundo Natal…
  • Te aquieta!
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A mãe chamou para a ceia: frango com farofa, arroz do almoço. Umas rabanadas murchas jaziam na travessa esquecida na mesa.

  • Comam. Eu vou me deitar.
  • Boa noite, mãe. Feliz Natal!
  • Hum… Feliz Natal…

A mãe seguiu em passos lentos para o quarto do casal. Os dois meninos sabiam que ela ia chorar, de novo. Todo Natal desde que o pai “desaparecera” era daquele jeito.

Faltava pouco para a meia-noite. O maior sorriu para o menor e disse:

  • Eu tenho um presente pra te dar…
  • Pra mim? O que é?
  • Surpresa! Fecha os olhos e abre a boca…
  • Olha lá, hem?

O menino maior se abaixou e levou até as mãos do menor um saquinho de pano. Dentro estava a surpresa, o presente de Natal.

O menor abriu os olhos e sorriu, tímido riso. Abriu o saquinho e viu o que lhe presenteava o irmão: duas enormes petecas de vidro, umas que os moleques da rua chamavam de “balões”, multicoloridas, “bolivianas”. Os olhos dele se iluminaram tanto que a lua pareceu ficar mais murcha lá fora. Depois abraçou o irmão, que disfarçava as lágrimas, e disse:

  • Obrigado, mano. Feliz Natal…

E o menino maior nunca mais esqueceu aquele Natal.

 

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FELIZ NATAL LEITORES E LEITORAS!

 

 

 

1 comentário

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Uma resposta para “UM CONTO DE NATAL

  1. Me emocionou demais! Parabéns Alfredo!

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