SE EU FOSSE MACHADO DE ASSIS – CAPÍTULO III

Um convite leva ao mundo dos letrados

Creio, se já não me falta a memória por estes dias insanos, que foi por esta época que me caiu às mãos na repartição em que trabalhava uma missiva. O lugar em tal emprego, é preciso que se diga, foi-me ofertado por um amigo de meu pai, diletante das letras que, de posse do meu poema premiado, transcreveu-o em cartão mimoso e endereçou-o a uma dama formosa com um buquê de rosas. Seja pelas flores, seja pelo poema, cuja serventia foi a de favorecer-lhe alguns agrados íntimos da mulher em questão, ficou sendo este muito grato a minha pessoa por tal obra.

Pois, dizia eu neste estilo tortuoso, certo dia veio ter a minha mesa um convite para um sarau onde se lançaria uma nova associação de versejadores. Por aquela época pululavam na cidade tais agremiações culturais. Talvez isso prove ainda mais minha teoria sobre a inanição cultural do nosso Estado e do país, mas não vem ao caso estender-me sobre tais assuntos que renderiam um cartapácio de (vá lá!) umas quinhentas folhas.

Uma das tais associações chamava-se Clube dos Versejadores Brasileiros (CVB) e primava por reunir como associados os poetas que rimassem em suas produções sonetos apenas com as palavras terminadas em ata, eta, ita, ota e uta. Ah! Fui a uma dessas reuniões onde pontificavam veleidades literárias e assomavam beletristas nascidos como capim nos campos verdes em flor. Por alguns instantes cheguei a acreditar que fosse eu um gênio da criação literária, tal era a indigência de talentos que aquela nobre associação conseguia reunir entre seus mais de trezentos poetastros. Creiam-me, ali estavam os trezentos não de Esparta, mas da megalomania misturada a uma destalentosa criação poética. Menos mal que o vinho era generoso, os acepipes idem e as damas acorriam à minha roda de conversa ao saber que eu era um poeta premiado! Ó como é louvável esse viver social da literatura onde se prima pela distribuição gratuita da vitamina E, que acaso não saibam ainda é a dos encômios, dos elogios.

Foi por obra de um desses encontros culturais que vi meu nome publicado numa obscura coluna de rodapé de jornal da época cujo teor estava assim redigido:

O conhecido homem das letras Joaquim M. de Assis, poeta laureado pelo seu soneto “Estátua de Marfim”, esteve presente a uma reunião do CVB e confidenciou ao colunista que breve enfeixará em livro seus mais recentes versos.

Não preciso dizer que meu pai, a esta altura um vetusto senhor, exultava com o que qualificava como sendo meu sucesso estrondoso no mundo das letras. O recorte do jornal acima referido tomou ares de diploma e foi assestado na parede de entrada de nossa casa. Era exibido pelo meu pai como um troféu familiar.

Ah! Atendi ao convite da nova associação que citei linhas acima neste relato que vai e vem como o caminho de um bêbado. Era a Associação dos Pernósticos Escribas (APESC) que tinha como pensamento fundador reunir apenas os escritores iniciantes que já tivessem pelo menos um trabalho premiado ou publicado em jornal. Como podem ver minha pretensão unia-se à deles. Melhor: juntava a fome com a vontade de comer. As primeiras reuniões foram tão desorganizadas, que achei tais escribas pouco menos loucos que uma cooperativa de lunáticos seria. Numa dessas ocasiões, um dos mais lúcidos dentre os escribas pernósticos saiu-se com essa proposta:

  • Senhor presidente, doutos integrantes da APESC, peço vênia para solicitar que se inclua na ata desta edificante reunião que hoje transcorre, a data de amanhã, ocasião em que passará pelos céus com suas flamejantes caudas o cometa de Halley. Se me dão licença, declamarei agora um poema escrito para a ocasião… – e deitou falação em uma resma de rimas que esvaziou a reunião, que quase sempre findava no bar mais próximo.

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