OS FEIOS NÃO ENVELHECEM

 

O poeta que me perdoe, mas feiúra é fundamental. Falo isso de cátedra, pois sempre fui feio, e não vejo depreciação em falar dessa forma. A diferença fundamental entre um bonitão que se auto-elogia e um feio crítico é que o primeiro enfeará durante a vida, já o feio, como nasceu feio, cresceu feio e, se não apelar para algum produto milagroso à venda ou fizer uma cirurgia plástica reconstitutiva, morrerá feio, não está nem aí. Venho descobrindo essa verdade aos poucos. É um parente que comenta o quanto eu não envelheci passados dez anos que não nos vimos (é bom acrescentar que ele a mim me pareceu um tanto míope, mas vá lá…), é um colega de trabalho que pergunta a minha idade e depois exclama:

– É mesmo? Puxa! Pensei que ser dez anos menos! Olha lá, hem? Estás em forma, enxuto!

Difícil ficar enxuto nesta Santa Maria de Belém do Grão-Pará, seja pelo calor ou pelas chuvas crescentes, concordam? Mas, voltando à feiúra fria: quem é feio sabe que, desde a mais remota notícia da infância, aparecem aquelas expressões dúbias, misto de pena e de gentileza:

– Olha só, ele é tão bonitinho…

feio1

“Bonitinho”, como deve saber todo feio que se preza, é o feio “arrumadinho”. Também transitei por essa fase, sendo bajulado eufemisticamente. Na adolescência, com todos seus bilhões de hormônios em efervescência, passei a ser “simpático”. Como sempre fui metido a engraçadinho, galguei algumas posições e cheguei a ser “simpaticíssimo”, superlativo que grudou em mim como um chiclete. Mas, entendam bem, sempre sendo feio fisicamente. Na idade adulta, mercê da posição social galgada, já trabalhando para produzir a mais-valia, virei “atraente”. Nunca soube se o que atraía o sexo oposto era meu emprego, algum dinheiro ou as anedotas sem graça que contava para entreter as minhas eventuais companhias femininas. Vencida a turbulência da passagem de tempo de “jovem adulto”, a caminho da terceira idade, descobri-me “charmoso”, pelo menos é o que me assegura com sua sapiência feminina minha esposa.

GARCIA.CARICA

Foi assim que desenvolvi essa minha teoria, que poderá até ganhar o Prêmio IgNobel de Criatividade. Como os feios não são notados pelas pessoas a vida toda e os bonitos sim, quando estes últimos envelhecem perdem na comparação com o ápice da sua beleza (18/30 anos), gerando aqueles comentários ditos de lado:

– Nossa! Como Fulano está envelhecido!

É aquele processo que, no tocante às mulheres, transforma uma uva num abacaxi, deixando o politicamente correto de lado. Já quanto aos feios, a coisa muda de figura:

– Nossa! Como Fulano está bem! Aquele topete grisalho é um charme!

Creio que um dos responsáveis por esta valorização dos feios na sociedade moderna tenha sido o ator francês Jean-Paul Belmondo. Ele vivia cercado de belas mulheres em seus filmes e era considerado “charmoso”. Um outro feio que faz bonito na telinha é o ator José Mayer, e a mim não digam as mulheres que Mayer é bonito, por favor. Ele, como todos nós feios acima de 40 anos, é “charmoso”, seja lá o que isso signifique. E assim caminha a humanidade, entre feios e bonitos, alegres e tristes, rumo a não se sabe onde.

 
feio2

Do livro PORANDUBAS, Populivros, 2009

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s