SE EU FOSSE MACHADO DE ASSIS (2)

CAPÍTULO II – Uma infância diferente

Na infância, quando tomei noção de minha existência no mundo, era comum meu pai querer que visitantes e parentes, os quais adrede vinham ter à nossa casinha, nomeassem-me pelo carinhoso epíteto de “Machadinho”. Não direi aos que me leem se gostava ou tinha antipatia por tal chamativo; era-me indiferente. Uma vez peguei-o comentando, à sorrelfa, em casa, com um convidado, o qual declamara há instantes um cataléptico poema chamado “A Nau dos desassistidos virá buscar os que nela quiserem aportar”:

– O Machadinho, ó Antunes, ainda há de cumprir o desígnio de ser um doutor na vida, ou até mais que isso: um verdadeiro sábio! Um sábio! Escreve o que estou a te dizer, ó homem de pouca fé!

Dos oito aos 14 anos ouvi estas palavras como se sopradas por uma sibila que profetizasse meu destino a partir do nome tão toscamente juntado que veio a ser o meu na pia batismal. Uma coisa ou outra já eu compunha, mais por mimetizar alguns escribas que meu pai me dera a ler do que por ter talento nato para a escrita inventiva. Quanto de brincadeiras eu perdi naqueles tempos! Quantos meninos e meninas afastavam-se do Machadinho que eu era por julgar-me um pequeno gênio, um ser acima dos tão inocentes e puros jogos com os quais então se divertiam. Era eu um solitário, caríssimos.

Ai que saudades que eu tenho dessa aurora da minha vida, senhores, desses anos que não voltam mais e que eu nunca vivi na plenitude por misantropia paterna!

Nos estudos, embora não fosse eu mais do que um dedicado e esforçado aprendiz que sofria para colocar cachola adentro as quatro operações, conjugações de verbos, deslindar orações sindéticas e assindéticas, meu pai, qual a coruja que vê beleza infinda no filho que nada tem de brilho próprio, cobria-me de elogios, ainda mais sendo dia de sarau em casa e estando presentes muitos que passavam dificuldades para impingir aos filhos um estudo que lhes desemburrasse.

– Pois, olhem, aqui por casa o Machadinho, longe de me dar trabalho, tem me dado é muito gosto! Querem ouvir uma composição escolar que ele fez recentemente?

E lá se punha a ler meus arremedos de redação. A mais aclamada pelos néscios era uma em que eu descrevia com um estilo em que as frases mal se punham de pé, tal era o peso dos adjetivos e a pontuação errática, a minha família. Que impostação dava a voz no afã de colocar luzes naqueles parágrafos canhestros! Que lágrimas derramava ao ser aplaudido! Meu velho e bom Francisco de Assis, quanta saudade!

No ginásio, depois no científico, talvez já mordido pela mosca azul da realeza livresca, entendi de participar de concursos literários. Era comum naquele tempo que os grêmios estudantis patrocinassem tais certames. Em um deles, hoje creio eu que por total incompetência dos concorrentes apresentados, fui premiado com menção honrosa junto com mais dez outros escribas iniciantes.

Que brilho vi no olhar do meu doce Francisco, com que lordezas me tratou naqueles dias!

O poema era uma somatória de ingenuidades – ó ilusões de minha juventude! – enraizadas por um temperamento árcade. Tal gloríola municipal fez com fosse eu contemplado por pelo menos uns sessenta dias com doces, jantares que celebravam minha vitória de Pirro como se fosse uma ascensão ao Parnaso. E, no entanto, eu era um medíocre entre os mais medíocres.


machado de assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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