SE EU FOSSE MACHADO DE ASSIS – CAPÍTULO I

À guisa de explicação necessária

Aqui vão contadas umas tantas aventuras e mais do que nunca as desventuras de um homem de letras que nasceu com o nome de Machado de Assis. Isso sem ter talento similar ao grande homem das letras nacionais e mundiais que foi o nosso Joaquim Maria Machado de Assis.

Como o sol até nasce para todos, mas a sombra acaba sendo somente para os que dela se assenhoreiam, creio que o que conto pode ter alguma valia, especialmente para os que sonham ter seus nomes gravados em letras de ouro em livros que serão devorados por leitores insaciáveis por leituras. A vida não é assim; a Literatura em nossas plagas não é e nem nunca foi assim.

Este é um reino de míseros homens medíocres e de leitores idem, onde o compadrio manda e obedece aquele de menos talento.

Se assim é, lhes apetecerá sem dúvida tal leitura; caso contrário, atirem à lata de lixo tal publicação.

 O autor.

CAPÍTULO I – De como uma homenagem muda um destino

 Posso assegurar para cada um de vós, leitores que deitarem os olhos preguiçosos por estas páginas, caber a culpa de muitas agruras pelas quais tenho passado ao meu pai. Talvez um de vós levante a mão, indignado com tal imputação de pecado à figura já desaparecida de nosso convívio, mas, me creiam os caríssimos e as caríssimas, nada mais é esta afirmação que uma cristalina e transparente verdade.

Vou contar-vos minhas peripécias pelo início, como é constante nestas narrativas. Ao nascer, a guisa de homenagem, quis meu genitor – cujo nome era Francisco de Assis por ter nascido no dia de São Francisco de Assis e assim lhe nomeara o ser a boníssima senhora que o acolhera à porta de casa em noite friorenta e longínqua -, pespegar-me o nome de Joaquim Maria Machado, nomes que homenageariam meu avô materno (Joaquim) e minha mãe (Maria Machado). Por obra do destino, e desatino do tabelião que botou no papel timbrado minha identidade, ao saber que meu pai se chamava Francisco de Assis (não sendo este último sobrenome herdado, por razões já mencionadas), quis o homem complementar a desdita:

– Se ao nome que me citas somares o Assis terás, realmente, empreendido uma bela homenagem ao mais ilustre homem de letras deste país.

Meu pai, interrogativo, levantando o cenho, indagou ao semiletrado cartorário:

– O que me diz senhor tabelião?

Era meu pai um homem dado a algumas leituras, mas ainda não se deparara com nenhum livro de Machado de Assis. O seu espectro intelectual variava de um Luiz de Camões aos sonetos de Olavo Bilac, objeto de constante declamação em saraus que promovia. Era ele um tranqüilo funcionário público, contando os cobres ao final de cada mês para sustentar a família, que naqueles dias fora encorpada com minha chegada neste vale de lágrimas.

Voltando ao tabelião: explicada a origem nobilíssima, intelectualmente falando, do nome que me seria atribuído, exultou meu pai:

– Bons augúrios! Muito bons! Um filho escritor! Escritor!

Mal sabia eu, que ainda vagia como um bezerro desmamado, desacostumado a outro ambiente que não o útero materno, estar ali começando uma história que mais pode ser dita como similar a uma comédia de erros.

MACHADO1

 

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