Leitinho


conto de Franciorlis Viana

Ela fora bem clara em seu aviso. O Sr. Nóbrega, eriçado que estava, não se importou. Homem, já se disse nalgum lugar – e se diz -, quando deseja levar uma mulher para a cama tem o raciocínio de um cavalo: só pensa horizontalmente. Marcaram para o domingo, depois da missa.

Ele estacionou o carro na esquina e ficou aguardando. Enquanto isso aproveitou para assistir um vídeo adulto no smartphone. Sabe como é, depois dos cinquenta anos é sempre necessário um aquecimento para que, na hora H, não haja decepção. “Vamos lá, meu velho! Força! Não é todo dia que uma piva desse tipo quer lhe abrir as coxas em flor-de-lis!” – dialogava com seu pênis, que lhe respondeu, ranzinza: “Tô fazendo o máximo possível, camarada!”. Dois restolhos, bravios em seus tempos de glória. Hoje, nem sombras eram.
Repito: ela fora bem clara em seu aviso. O Sr. Nóbrega ignorou. Que aviso? Era mãe de um bebê de seis meses, estava amamentando. Por isso, os seios fartos não eram protuberância de carne, e sim, leite, muito leite. O aconselhável seria que, no ápice erótico, ninguém lhe sugasse as aréolas, por mais que a tentação batesse à porta, corrijo, “batesse” não, que a diaba quando vem, derruba a casa inteira! “Não chupa, amor!”, pediu-lhe. O Sr. Nóbrega concordou unicamente da calça para fora, porque da calça para dentro já concebia expelir-se no aconchego inquieto de uma espanhola bem feita.
Vinte e um anos. Aparência de quinze. Uma Little Lupe fissurada em homens mais velhos. E o melhor: não era puta. O bolso do Sr. Nóbrega, penhorado, agradecia.

Aline, do site acompanhantes.com, já onerara além da conta a minguada aposentadoria dele, a ponto de escassearem alguns remédios para a diabetes. Caso não fosse uma profanidade, ajoelhar-se-ia e agradeceria aos céus por tamanha bênção. 

SEIOS1
Reservemos, leitor, um parágrafo para lamentarmos a situação do pobre Sr. Nóbrega. Em sua idade não se podia dar ao luxo de desacreditar dessas falácias que garota jovem e ambiciosa declara com o intuito de posar de santinha do pau oco (nesse caso, também flácido e semimorto). Idosos como ele são quase obrigados a canonizar a ladra que lhe deixará só de cueca, e olhe lá, visto que se a cueca for de marca conhecida pode ser revendida nas redondezas do Ver-o-Peso! A razão dessa inevitabilidade é o fato de ainda apetecerem a eles uma boquinha macia a lhes acarinhar o saco escrotal, evento que não sai barato depois que o rosto de James Dean é devorado pelo Tempo, esse deus imperioso! Quem tiver acima de cinquenta, e não for um milionário, compreenderá e remirá este apotegma: “Às vezes uma mentira sustenta a abóboda de todas as nossas verdades”.

Convoco o leitor a lastimar sim, mas não expurgar o Sr. Nóbrega. Deixemos que ele subsista amparado nessa ilusão de que a garota não é interesseira, e que prefere mesmo homens mais vividos. Vivido é o mundo, o resto é esperteza. Esperta, ela não pediu celular, brincos de ouro, ou roupas de grife. Não pediu ainda. Para quê assustar o cordeirinho? Que ele se aproxime mais e mais, atraído pelas armadilhas de calcinhas comestíveis. É preciso garantir as fraldas do bebê e a gasolina da motocicleta do Ricardo, seu namorado, um ano mais novo que ela. Assim, diria José Saramago, caminha a humanidade. Ô coisa ruim, que não se emenda! 
Para sentir-se macho alfa, o Sr. Nóbrega ordenou que ela o despisse. Ressaltou que, ao chegar à cueca samba-canção, ela não usasse os dedos, apenas a boca. A garota nem fez cara que gostou, nem que desgostou. Ocultou o nojo. Era habilidosa na arte da desfaçatez. Obedeceu. Que o cordeiro acreditasse que era lobo! Ficava mais fácil para cair na armadilha. No espelho do seu quarto observou-se surgir nu em pelo, aliás, muito pelo, moitas agrisalhadas. O Sr. Nóbrega é um verdadeiro Tony Ramos do Alasca. O pênis molenga escorria entre as coxas, como a esconder-se vexado. “Venha cá, seu danadinho”, ela brincou, empunhando-o, contudo, o bicho descaiu a cabeça para a esquerda; isso foi até poético: pareceu andorinha com o pescoço quebrado. Sacode, bole, volte, acorde. Nhac! Sentiu quando a ponta de sua língua começou a rodopiar em sua glande, totalmente absorvida. Aquele calorzinho aquentou mais do que seu órgão genital, abrasou-lhe a alma há muito gélida. O Sr. Nóbrega agora é o Mumm-Ra, “o rei de vida eterna”, dos Thundercats. Só que transformado. Aos infernos com suas ataduras! 

SEIOS2
A garota cansa de engolir, em gotículas, o esperma do Sr. Nóbrega. Tira a calcinha e acomoda-se em seu colo. Rapidamente, para aproveitar o Mumm-Ra, pois tal ressuscitação não costuma alongar-se. Aprendera isto depois do décimo pinto senecto que a vida lhe apresentara. Não se assuste o leitor, ela é nova, porém, digamos. experimentada…

Os tempos são outros! Apenas as mulheres são iguais; explico: iguais em sua capacidade de ludibriar os homens no apogeu da libido. Então, a garota roça seu corpo liso no Sr. Nóbrega, esbarra nos obstáculos de pelancas. Valha-me-Deus-minhanossasenhora! Suporta a náusea. Na cabeça esvoaça a lembrança do bebê, das fases do bebê, das fraldas faltando. Acelera o ritmo. Geme loucamente, imita atriz pornográfica, “me-come” e “me-fode” são expressões que se tornam soberanas em seu dialeto impudico. 
O delírio faz com o Sr. Nóbrega olvide a recomendação de sua parceira. Mete-lhe cada mão numa banda da nádega e arreganha-a para que o vento sopre em seu “anel”, que pisca. Simultaneamente abocanha uma de suas aréolas. Ela nem se dá conta, obcecada por fazê-lo gozar. O Sr. Nóbrega suga. A boca se enche de um gosto agridoce, um líquido adusto, adorável, legítima ambrosia do Olimpo. É o leite do bebê. O Sr. Nóbrega leva alguns segundo para atinar com a origem daquele sabor. Deveria se retrair. Largar a comida da criança. Não o faz. Mama. Esquece-se do pênis, lutando para gozar, dentro da garota. Está absorto. O sexo, o mundo, a vida terão outro significados depois destes seios. Jamais se deitará com mulher que não esteja amamentando. Um fetiche nasceu.

SEIOS3                       SEIOS3

O Sr. Nóbrega ejacula o mais intenso gozo de seus cinquenta anos de vida. Suspeita que o seu sêmen esperou todos estes anos por esta data. A garota se desacopla. Dá com sua aréola aguada em branco. Reclama, fica furiosa. O precioso néctar era de seu filho. O Sr. Nóbrega se desculpa. No íntimo não nutre remorso algum. É o homem mais feliz do mundo. Se pudesse, ele gritava. 
Estaciona o carro perto da casa da garota. Ela irá andando para que os pais não notem que não estivera com as amigas carolas da igreja. Tão gentilmente se dispõem a cuidar do bebê sem pai assumido, enquanto a filha reza. Quem sabe crie juízo. Cria não! 
– Boa noite, bebê. Dorme cedo, viu! Um beijo para o Guguinha! – o Sr. Nóbrega se despede. 
– Ainda tô fula contigo! Amanhã, se meu peito não der leite a culpa vai ser tua – sai do carro.
O Sr. Nóbrega se apressa:
– Bebê, desculpa. E, por favor, pede para o Guguinha me desculpar também por ter bebido o leite dele!
Ela entra.
Ele liga o motor do Fiesta, põe um CD de Caetano Veloso, e parte, decidido a fazer uma visita ao berçário municipal… Quem sabe amanhã não faça amizade com alguma mãe-ninfeta padecendo de superprodução de leite, e que “goste” de homens vividos? Seria uma bênção!

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