CÃES DOS INFERNOS


cãesmaus

Isso foi no tempo em que os animais mandavam no mundo.

Naquele tempo a gente vivia pelas ruas atrás de comida. O mundo não era um lugar bom para se viver, especialmente se você era um humano.

As guerras do final dos anos 2000 tinham mudado a face da Terra. Numa virada de mesa, os animais é que mandavam nas megalópoles. Não tenho tempo para explicar tudo, mas é preciso que saibam que as experiências com mutações genéticas e as armas químicas tiveram alguma coisa a ver com isso.

Então, a gente vivia pelas ruas atrás de comida. Aos bandos. Gritando de fome. Uivando de dor. Ninguém se compadecia. O Grande Cão, que governava nosso distrito chamado Marajó I, no antes município de Santa Cruz de Arari, na Amazonland, não tinha a menor simpatia conosco. Diziam que os antepassados dele – dobermans e pastores alemães – haviam sido maltratados pelos nossos, os humanos.

Como vivíamos aos bandos, nas ruas, procriávamos bastante. E isso incomodava ao Grande Cão e seus asseclas. Também éramos vítimas de doenças em demasia: carrapatos, pela falta de higiene corporal, piolhos, doenças da pele, etc. Éramos uma matilha de abandonados e doentes entregues à própria sorte, mas ainda livres. Mas isso mudou.

Dizem que foi o Velho Cão, que atendia pelo nome de King Dog – coisa que ele detestava – o mentor da lei que ficou temidamente conhecida entre nós Ato Extintocional 5, o AE-5. Aprovado por unanimidade pela Congresso Constitucional Canino (CCC), simplesmente autorizava a que se desse a caça remunerada de todos nós que vagávamos pelas ruas! Era simples a legislação: qualquer canino que capturasse um ser humano receberia 10 créditos, no mínimo, que poderia gastar nos galpões de alimentos ou deduzir do aluguel de sua habitação, tudo administrado pelo Estado-Cão.

Foi um tempo de fuga e medo. O Velho Sábio, que já vivera outros tempos, disse na época que só vira algo parecido na época do nazismo, quando caçavam os extintos judeus. Com a anunciada recompensa, via-se lotes de humanos atados por cordas. Estes, machucados, famélicos, doentes, eram colocados em barcaças frágeis que ficavam à deriva no Grande Rio até que a madeira fina se rompesse e as piranhas viessem ter seu banquete.

Minha família se foi assim, num dia de dolorida memória, quando meu pai foi arrastado pela rua enquanto vociferava com o que lhe restava de forças:

– CÃES DOS INFERNOS! Devíamos ter dizimado todos como aconselhava o Conselheiro Pamplona!

Foi tudo inútil: resistir, gritar, chorar, espernear, qualquer outro verbo. Eu sobrevivi, oculto por um tio que conhecia os rios e a vegetação da Amazonland. Por isso, hoje posso contar a história, com esse toco de lápis e papéis roubados por meu tio de uma antiga escola para humanos. Estamos resistindo. A gente só não sabe até quando, pois o CCC continua à nossa caça. “Cães dos infernos”, diria meu pai.

cãesmaus

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “CÃES DOS INFERNOS

  1. Caro Alfredo, que bom que disponha sua Arte para eternizar um momento tão trágico de nossa história.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s