NA TOCA DO “LOBO MAGRO” DE ANANINDEUA

Por
 Alfredo Garcia-Bragança

Pouca gente sabe, mas na rua João Canuto, número 510, no município de Ananindeua, região metropolitana de Belém, a cerca de cem metros da movimentada rodovia BR-316, mora um lobo. Não um lobo desses dos contos de fada tradicionais, ou mesmo dos mais modernos, à moda dos Irmãos Grimm, que devora avós, mas um lobo devorador de letras. Um lobo magro. Ou mago, se assim quiserem.

Longe dos guizos enganadores dos elogios e da vida literária social, o nosso lobo se refugia numa casa que mais se assemelha a um sítio, espécie de paraíso cercado de verde e bichos em meio à selva de concreto que tem tomado as terras ananins. Lá ele lê bastante – seu livro de cabeceira da hora é o instigante “Corações Sujos”, de Fernando Moraes -, escreve econômicamente e ganha alguns reais como revisor de livros, que vão se somar ao piso salarial achatado da sua aposentadoria.

Sorte de quem tem nosso lobo como revisor. Exigente, o “lobo magro” – como ele mesmo se autodenomina –, ou melhor: Roberto Carvalho de Faro (batizado Roberto Monteiro de Carvalho), já chegou a recusar alguns originais a ele enviados para o trabalho de revisão, que ele, pacientemente faz na sua toca de lobo, defronte o computador, em manhãs, tardes e até noites. Integrante da Academia Paraense de Letras (APL) desde 2004, admirado por um seleto grupo de leitores, Carvalho de Faro é autor de três romances publicados e mais o inédito “Juntando os cacos”, além dos livros de contos “A criança e a guerra”, “Que Deus é esse?” e “Presságios & Promessas” (inéditos) e “Casos do Mestre Porfírio” (Paka-Tatu), e de poemas (“Tempos Líricos” e “Dimensão do Tempo”), Roberto está lançando “O guindaste amarelo” (romance, Paka-Tatu, 2012), livro que se segue a “Depois da Tempestade” (Edição do autor, 2004) e “Arrastado pela correnteza” (Paka-Tatu, 2012).

Sobre a nova obra, academias, livros e leitura ele fala nesta entrevista.

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Fale-nos um pouco do seu mais recente romance.

Roberto de Faro – “O Guindaste Amarelo” já veio quando eu achava que não tinha maios nada pra escrever. Uma tarde, um final da tarde, eu estava na Estação das Docas, e olhando um guindaste amarelo acabei me recordando do tempo em que eu lidei com a navegação fluvial, na década de 80. A ideia original era só fazer um documentário sobre aquele época, mas acabei criando de uma forma romanesca, as reminiscências daquele tempo de navegação. Há momentos em que o livro relata coisas reais, mas só que, na verdade, os personagens – a maioria deles pelo menos – é pura ficção.

Esse é o teu quarto romance. “O guindaste amarelo” tem algo a ver com os teus romances anteriores ?

Não. São totalmente independentes, diferentes. Também foram escritos em épocas distintas, as motivações também não foram iguais. Por isso não há semelhança nenhuma entre os quatro trabalhos.

Você é de uma região ribeirinha, do Baixo-Amazonas. Tens, naturalmente, vivências ribeirinhas. Em algum momento isso em teus livros se sobressai?

Eu sou caboclo da Amazônia, do Baixo-Amazonas. Sou da fronteira entre os estados do Pará e Amazonas. Sou daquela região de Santarém, Óbidos, Juruti; aquela que é a minha região. Os temas que eu uso são os da própria vivência que eu tive da região amazônica, que não precisa ir tão longe: a Amazônia tem uma riqueza infinita de motivos pra gente escrever. E, se eu não falar da minha região, amigo, quem é que vai falar?

Ano passado, na XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, lanças o romance “Arrastado pela correnteza”. Fala um pouco dele.

Esse é um que, na verdade, virou romance. A ideia inicial era escrever um conto. Sói que eu não tenho disciplina, não projeto, não planejo absolutamente nada do que eu vou escrever. Tudo que vai saindo é espontâneo. Ás vezes até independente do que eu quero. Apenas eu sirvo de portador” de uma ideia. E esta vai rodando,rodando… Geralmente um livro eu escrevo em torno de um mês. Quando é que eu percebo que o livro terminou? Quando eu acho que já não cabe mais nenhuma palavra. Se a última frase saiu e eu não consigo colocar uma outra depois dela, para mim o livro acabou. E outra coisa: não isso de fazer revisão, não. O que está escrito, está escrito. Ás vezes eu volto atrás para ver se não estou trocando nomes de personagens. O único dos meus livros que levou mais tempo, mesmo assim sem interromper, no qual gastei quatro meses, foi o “Juntando os cacos”, que ainda está inédito. Fora isso, os outros foram feitos em trinta dias. Ou sai, ou rasga.

No contexto da produção literária nacional recente temos uma safra de romances que tratam de temas urbanos, em geral. Tens algum livro que se passe no espaço urbano ou que tenhas ideia de escrevê-lo?

Sim, tenho o “Juntando os cacos”, cujo cenário é Manaus. Tudo se desenvolve naquela cidade. É o único romance meu – vamos chamar assim – que é urbano. Os outros todos têm o cunho de rio, de igarapé, de mata, de floresta, essa coisa toda.

No que você escreveu até hoje em contos, romances, poemas, que porcentagem vai de vivência e ficção? Isso existe?

Não sei se não existe a colocação da vivência no texto. Acho que ficção pura, pura, pelo menos com relação a mim, não tem. Porque eu sempre usei as experiências pelas quais eu passei naquilo que eu escrevo. Tanto que eu só comecei a escrever livros quando eu achei que já tinha algum amadurecimento, isso já com sessenta anos de idade. Eu vi que já tinha uma estrada mais ou menos comprida, longa, onde eu podia colher muito material dessa própria vivência.

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10 Comentários

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10 Respostas para “NA TOCA DO “LOBO MAGRO” DE ANANINDEUA

  1. Fiz login , para o intercâmbio …

  2. Não moderaram as duas últimas solicitações que fiz … desapareceram com elas: lamentável ! Mandei contos para o autor opinar , e espaço para DIALOGAR …
    TROPICALEIDOSCÓPIO
    http://www.clicluizlima.blogspot.com.br/

    Esta moderação está incompetente, pô … ou, pa… como dizem os lusos…

  3. Estou aguardando as respostas do autor de O Guindaste Amarelo … Como está demorando, aproveito para perguntar-lhe o que ele já leu do Haroldo Maranhão e do Dalcídio Jurandir ? E o que gostou ? Mas , pelo jeito vou falar com ele na próxima Feira do Livro, agora antecipada …espero …
    Ele pode ir ao meu blog literário, e ler-me alguns contos, e emitir opinião:
    TROPICALEIDOSCÓPIO
    http://www.clicluizlima.blogspot.com/

  4. Continuo a esperar a resposta do neo-escritor… espero que boa. E minhas perguntas foram simples: é o mínimo que se pode pedir para um novo colega, que tem que ser sincero, e convicente. Gostaria de ler o urbano Juntando os Cacos, ainda inédito. Gosto de novidades, e sou um grande leitor, inclusive de tijolões, como se diz … E , fico curioso com livros escritos em um mês: o que eles nos dizem ? Continuo aguardando respostas, sem auês …

  5. OCTAVIO PESSOA

    Excelente, Alfredo. O mestre “Lobo Magro” merece a nossa admiração e a divulgação que dele e sua obra fazemos e muito mais.
    Um abraço.

  6. Ainda não houve moderação ? que saco ! e, também ninguém comentou nada … nem mesmo ,a revelação literária …

  7. Estou esperando resposta … horas depois … que letargia !

  8. Gostaria de saber se ele conhece e leu os grandes romancistas da humanidade… como Dostoiévski, Tolstoi , Turguêniev , Gogol … Balzac , Flaubert, Proust … Joyce, Kafka, etc… e, quais os romances de Machado de Assis que leu ? O que gosta na literatura, que é claro, não começou com ele ? E que paraenses destaca ?

    • Roberto Carvalho de Faro

      Meu caro LUIZ LIMA BARREIROS se você me der deu e-mail poderemos conversar. O meu é robertodefaro@gmail.com
      gostei de seus comentário.

      • Só hoje , vejo esta sua mensagem, que esperei muitos dias… Estive ,na Feira do Livro , nesta e nas outras , comprei seu livro O Guindaste Amarelo, e estou aqui com ele , para pegar o autógrafo, como é comum entre nós escritores … Procurei-lhe e não lhe encontrei … o que acontecerá, em breve …
        Luiz Lima Barreiros
        (ex-presidente da A.P.E / UBE-SP 1303 / SERJ / SBAT )

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