VELHO É O MUNDO ou NÓS, AQUELES QUE QUEREMOS ENGANAR O TEMPO

Por ALFREDO GARCIA

Nem tudo é telecoteco no Carnaval. Nestes dias de ziriguidum pelo Brasil afora, eu e minha família – mulher e mais três filhos jovens de 17 a 24 anos – nos recolhemos em casa, curtindo a chuva paraense de todas as tardes, lendo, escrevendo e vendo alguns filmes e séries que a azáfama diária impede de vermos com a necessária possibilidade de reflexão sobre os temas.

Foi assim que revi, passados quase trinta anos, o sempre clássico “A Balada de Narayama” (1983), de Shohei Imamura. O filme é baseado em uma antiga lenda chamada Ubasuteyama, do Japão antigo. No filme, Imamura nos conta a história sobre o Monte Narayama em cujo sopé, na época de um Japão feudal extremamente pobre, vive uma comunidade de aldeões agricultores. 

Nesta comunidade, os velhos, ao completarem 70 anos são levados ao Monte Narayama para ali morrerem. Detalhe: a indicação de que os velhos devem ser levados ao cume do Narayama é quando lhes começam a faltar os dentes. O altruísmo de Orin, uma idosa às vésperas de seus 70 anos e de saúde e dentes perfeitos, faz com que ela quebre os incisivos superiores para justificar sua desnecessidade de comida, já às vésperas de sua partida ao Monte.

Além de ser um excelente filme, assistir de novo “A Balada de Narayama” me fez refletir sobre a finitude do ser humano e sua relação com a morte e também sobre a velhice. Na verdade o tema a mim tem rondado e acabou por somar-se ao que já tinha lido no livro de Lia Luft (“A riqueza do mundo”, 2011) e ao que li nesta segunda-feira, 20 de fevereiro, em texto lembrado pela querida amiga Rose Silveira em sua página no Facebook, de autoria da escritora e jornalista Eliane Brum, que é “Me chamem de velha” e em outro de Ruy Castro sobre temática similar.

Vejamos o que nos diz sabiamente Lia Luft: “É intrigante como encaramos a passagem do tempo: tem a ver com o jeito como pensamos na vida. Se a gente a considera uma ladeira que desce a partir da primeira ruga, ou do começo da barriguinha, viver é uma doença que acaba na morte”. Bem incisiva, não? Mas, Lia tem mais a nos dizer, percebam: “Se a consideramos um processo, uma transformação até o último instante, podemos ter curiosidade com relação a isso, e encarar cada dia como uma dádiva a ser curtida, mesmo nas horas de sombra: tudo é vida.”

Já Eliane Brum traz à tona em tempos hodiernos e perigosamente ditos “politicamente corretos” a velhice sob o prisma da linguagem na mídia: “Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor.  Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem”.

O mestre Ruy Castro, em seu texto “Mais jovens do que somos”, fala sobre os escritores de ontem e de hoje: “Nas fotos, eles estão sempre de terno escuro, pérola na gravata e competente chapéu. (…) São belas fotos. Numa delas, José Lins do Rego, Otavio Tarquínio de Souza, Paulo Prado, José Américo de Almeida e Gilberto Freyre parecem a ponto de tomar um navio para a Europa. Em outra, Guimarães Rosa, de paletó riscado e gravata borboleta, afaga seu gato. E, ainda em outra, os rapazes de 1922, alguns com suspeitos colarinhos parnasianos, posam pimpões para o futuro -sentado no chão, sem comprometer o vinco da calça, o galhofeiro Oswald.

(…) Não sei se pelas becas, mas todos aqueles homens pareciam mais velhos do que eram. Pense bem: Graciliano Ramos morreu com 60 anos; Rosa, 59; Zé Lins, 56; Clarice Lispector, 56; Olavo Bilac, 53; José de Alencar, 48; João do Rio, 39. Como construíram obras tão grandes em vidas tão curtas? 
Daí penso nos colegas com quem cruzo no Leblon -bronzeados, de chinelo, bermudas, camiseta do Pernalonga, iPods à orelha-, todos parecendo mais jovens do que realmente somos. E me pergunto se esse à vontade quase indecente se refletirá em obras que atravessem décadas ou séculos, como as dos antigos”.

Viver plenamente a Vida devia ser uma lição de todo dia para nós, humanos

Fincando o pensamento nessas quatro sólidas pontes, ato as minhas palavras. Desde o belíssimo filme de Imamura, passando pelos textos de Lya Luft, Eliane Brum e chegando ao Ruy Castro, a reflexão sobre a finitude da vida humana perpassa todos. Já disse o poeta Fernando Pessoa que somos “cadáveres adiados”. Alguém duvida? A mim me parece que viver é preencher os muitos vazios que encontramos entre o nascer e o desaparecer desta vida.  Não tenho medo de envelhecer. Acho que estou caminhando de certa forma com razoável tranquilidade nesta estrada. Já cheguei, aliás, ao quilômetro 51.

Tenho medo mesmo é do desemprego, da violência gratuita, mas tudo isso faz parte da vida, integra o pacote. Minhas rugas são o mapa dos caminhos que fiz pela vida, marcas indeléveis de que vivi.

Quanto à perenidade ou eternidade da Literatura, acho que isso tem pouco a ver com polainas ou jeans. Vejo, no ontem, gente que hoje nem mencionada é nos rodapés da História e abusava das casacas, e na modernidade muitos que se acham modernérrimos e que, aposto, no futuro serão somente poeira do tempo. Isso é a vida, aliás.

A vida tem que ser vivida na pressa, ou a pressa de viver leva que não vivamos bem?

2 Comentários

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2 Respostas para “VELHO É O MUNDO ou NÓS, AQUELES QUE QUEREMOS ENGANAR O TEMPO

  1. Luiz Lima Barreiros

    Lembrei-me da obra filosófica do Jean-Paul Sartre , Le Être et le Néant, de 1947 , quando este afirma : ‘É absurdo que tenhamos nascido; e mais absurdo ainda que tenhamos de morrer…”
    Este é o paradoxo da existência … sou um existencialista , e procuro viver intensamente , todos os momentos , e todos os dias…
    Não me preocupo com o que não serei … pois já soube …ou soubemos,todos …que vim do Nada , e para o Nada vou !

    Recomendo a leitura de meu antigo e pioneiro blog (entre os amigos)… o TROPICALEIDOSCÓPIO
    http://www.clicluizlima.blogspot.com.br/

    • Luiz Lima Barreiros

      Para abrir logo meu blog , com nove contos premiados , é melhor usar :
      TROPICALEIDOSCÓPIO
      http://www.clicluizlima.blogspot.com

      E , ordem de leitura dos últimos contos:
      1-Um Rompimento ; 2- Reencontro no Lennon Bar ; e 3- Kátia foi Passsear no Bosque …
      Sem esquecer o clássico : UM DIA NA VIDA CABREIRA DE JOÃO CARIOCA MACAXEIRA

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