A CELEBRAÇÃO DOS CONTRÁRIOS

O disco “Legião Urbana” (1984/1985) chega aos 26 anos

Alfredo Garcia-Bragança

 

 

 

O ano de 1984 foi significativo para o Brasil e muitos brasileiros. Foi o ano da campanha Diretas Já!, de transformações políticas na vida do país – que ainda vivia sob o jugo da ditadura militar iniciada em 1964 – e da explosão maciça do chamado Rock Brasil. Ano bissexto, 1984 trouxe a possibilidade de uma geração de brasileiros poder votar em Presidente da República pela primeira vez, esperança que foi pelo ralo com a derrota da chamada emenda Dante de Oliveira.

No meio da multidão ávida por democracia estavam quatro rapazes de Brasília – Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha, o Negrete – que iriam ser catapultados ao topo da fama a partir de 1985 com um disco histórico para o rock and roll brasileiro dos anos 80 – o “Legião Urbana”, espécie de manifesto-síntese de uma geração nascida antes e após a implantação do regime militar no país e que carecia de se manifestar, de ter voz naquele turbilhão de acontecimentos.

História do país à parte, a banda surgida no cenário brasiliense trazia no primeiro disco, agora comemorando um quarto de século, uma mescla de influências (punk, rock progressivo, blues, etc.), fruto das vivências de seus integrantes, mas fundamentalmente de Renato Manfredini Jr., autor de grande parte das letras das composições, leitor compulsivo de uma gama de autores como Bertrand Russel, Jean-Jacques Rousseau, além de Allen Ginsberg, Rimbaud e Fernando Pessoa. Renato era a alma da Legião, já naquele primeiro disco um quarteto formado após uma famosa tentativa frustrada de suicídio dele cortando os pulsos e ficando sem poder tocar o baixo. Veio Negrete (Renato Rocha) para se somar ao trio anterior, oriundo de formações diversas que tiveram como origem a banda “Aborto Elétrico”, extinta em 1981.

 

A legião vence – O disco tem uma gênese curiosa. Já conhecidos na cena musical roqueira do planalto, os quatro rapazes de Brasília ensaiavam um salto para a fama na esteira do que havia conseguido a banda “Paralamas do Sucesso” de Herbet Vianna, João Barone e Bi Ribeiro, cujas canções tocavam em rádios de todo o país. Ainda como trio, em 1983, os rapazes entulhavam amigos e admiradores com fitas cassete demo que pretendiam fazer chegar a alguns produtores de gravadoras. Uma dessas fitas caiu nas mãos de Jorge Davidson, diretor artístico da EMI-Odeon, gravadora dos “Paralamas”. Por sorte ou azar, era uma fita com canções de Renato Russo em sua fase solo de “Trovador Solitário”, depois do “Aborto Elétrico” e antes da “Legião Urbana”. As quilométricas canções “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo” impressionaram Davidson, que viu em Renato uma espécie de Bob Dylan tupiniquim.

O que seria uma janela para o sucesso esbarrou na resistência da gravadora em ter em seu cast, conforme registra em “Renato Russo” (2000), o jornalista Arthur Dapieve, “mais um-trio-de-Brasília-cujo-cantor-usa-óculos” – referência aos Paralamas e Herbert Vianna, que fazia sucesso com “Óculos”, justamente. O intuito era contratar Renato Russo apenas.  Nesse vai-e-vem de interesses, o grupo esteve no Rio de Janeiro, sede da gravadora, por pelo menos mais duas vezes: uma no final de 1983, para gravar uma fita demo, outra em 1984, para a gravação de um compacto, que os rapazes abandonaram ao saber do direcionamento da gravadora – aquela história de country rock, Renato “Bob Dylan” Russo não era com eles, mesmo. Para sorte deles e do rock nacional surgiu no meio da história outro produtor da EMI-Odeon, Mayrton Bahia, que contornou a retirada dos ex-punks e seria o diretor de produção do disco, cuja produção executiva ficaria a cargo do jornalista José Emilio Rondeau.

A caminhada para chegar aos takes finais de “Legião Urbana” foi um longo e lento processo que teve como notas dignas de registrar o título inicial que os “legionários” pretendiam dar ao disco: “Revoluções por minuto” – nome que acabaria batizando a banda e o primeiro disco do RPM, lançado em junho de 1985. Outra coisa: a gravadora antipatizava com a letra e a melodia de “Soldados”, considerada pela EMI-Odeon soturnas. A marcha à moda do U2, conforme depois confessaria Renato Russo, na verdade, longe de ser o que à primeira vista parecia, um libelo contra o militarismo, era uma canção sobre “dois meninos que descobrem que se gostam” Venceram os garotos de Brasília, apoiados por Rondeau, que deu suas contribuições ao aprimoramento daquelas gravações sugerindo, por exemplo, a introdução ao teclado na belíssima “Por Enquanto”. Mesmo com a presença de uma canção como “Ainda é cedo” (a quarta no disco), considerada “de amor” e que foi uma das músicas carros-chefe que a gravadora usou para divulgar o LP, no todo “Legião Urbana” é um disco conceitual que buscava dar uma dimensão da época vivida pelos integrantes da banda – e por seus fãs –, o que acaba por trazer ao trabalho um rótulo de político. É só ouvirmos “Será”, “Petróleo do Futuro”, “O reggae”, “Baader-Meinhof blues” ou ainda “Perdidos no Espaço” para fazermos uma analogia com aquele conturbado começo dos anos 80 quando os “filhos da revolução”, os “burgueses sem religião” da geração Coca-Cola se viam às voltas com o descaso da educação, os estertores do governo militar, a travessia da infância para a adolescência nesse contexto, as drogas que eram transadas pelos boyzinhos sexistas, a violência que a mídia trazia para dentro das casas.

Historicamente o disco demorou a acontecer. Só chegou às lojas no começo de 1985, com previsão de venda de cinco mil cópias, mesmo assim sofrendo com a concorrência do Rock In Rio I que agitou o Rio de Janeiro naquele ano. Depois que “Será” começou a tocar em todas as rádios do país as demais faixas do disco aconteceram. Todas. Resultado: os meninos de Brasília chegaram a vender quase 50 mil cópias. Por quê? A resposta está numa declaração de Renato Russo: “Aquele disco dava um panorama de tudo o que estava acontecendo com o jovem daquela época e, por tabelinha, com o jovem de hoje em dia”.

Nas dez canções de “Legião Urbana”, mesmo após 26 anos decorridos, vemos a cara de um Brasil em ebulição, um país que ainda buscava sua identidade perdida a partir de abril de 1964, e que seria tema futuro do poeta roqueiro Renato Russo ao se indagar: “Que país é esse?”. Mas, essa é outra história.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Uma resposta para “A CELEBRAÇÃO DOS CONTRÁRIOS

  1. eliane oliveira

    fantástico! Tudo de bom pra ti. sicessos e voltarei a commentar …abraços

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s