ENCONTRO COM O LEITOR EM SANTARÉM (ou A VIDA TEM DESSAS COISAS…)

Como esse não é um texto acadêmico, e nem eu candidato a porcaria nenhuma, começo citando o Ritchie, aquele da “Menina Veneno”, vocês sabem que é? Se não sabem, paciência, procurem no Google. Só não confundam com o LIONEL RITCHIE, pelamor. Esse é outro, claro.

Por que o Ritchie? Porque estava eu posto em sossego, durante o IV SALÃO DO LIVRO DO BAIXO-AMAZONAS, realizado em Santarém de 16 a 20 de novembro, naquele horário que, nas feiras de livro, só vão aos estandes os chamados “ratos de livraria” – duas espécies em extinção: os ratos de e as livrarias -, quando um moço (acompanhado de uma senhora) se aproximou de mim e indagou:

– Aqui é o estande dos autores paraenses, né? Vocês tem O LIVRO DE EROS?

Pestanejei. Por dentro um turbilhão de sensações: fome, sede, cansaço, mas, principalmente, surpresa. Perguntei pra ele:

– O LIVRO DE EROS que você procura é um de contos, do escritor ALFREDO GARCIA?

Parecia um diálogo de loucos, uma conversa surreal. Eu, autor do livro, perguntando ao leitor se era aquilo mesmo que ele procurava, o meu livro, já esgotado há dez anos! O moço sorriu, tímido, e respondeu:

– É, é esse mesmo! – a mim me pareceu esperançoso de ter achado a obra, quase pude ver um lampejo de alegria no rosto dele. Adeus às ilusões, moço, cortei fundo:

– Uma pena… Eu sou o ALFREDO GARCIA, prazer. Olha, esse livro está esgotado desde 2001 quando saiu a segunda edição.

Ele me olhou, sério, olhou para a mãe dele. Só depois de ver um banner com minha foto e as imagens dos livros no estande é que abriu a guarda. Conversamos sobre Literatura, como e onde tinha lido O LIVRO DE EROS – foi numa biblioteca pública escolar, em Santarém, viu amigos da SEDUC? -, enfim um encontro entre autor e leitor que é quase impossível nos dias de hoje.

Luan Rodrigo, o meu jovem leitor de Santarém, levou todos os livros de ficção que levei até Santarém. E acabei prometendo a ele publicar logo, logo uma antologia dos meus contos, que já se vão 25 anos de vida literária e 50 de vida e muitos livros se esgotaram.

Luan – que faz Ciência da Computação ou um curso equivalente, mas é um grande leitor -, segundo a mãe dele, tem uma lista de livros que quer adquirir. Compra pela Internet. “A lista vive aumentando”, disse-me ela. Bendita mãe, que incentiva o filho ler, lhe compra livros, educa. Saí daquele encontro renovado. Que são as más condições de sobrevivência no mercado editorial, a falta de apoio de toda a forma da sociedade, o implacável silêncio dos meios de comunicação para os autores regionais, enfim toda essa ingrata selva de dificuldades que enfrentamos diante de um leitor que se declara o TEU LEITOR?

Diante disso, posso concluir, nós, escritores, os últimos cínicos-românticos da face da Terra, ainda vemos salvação no mundo. Enquanto houver alguém que creia na Palavra Escrita contra a inexorabilidade do Tempo e suas artimanhas, penso eu, há SALVAÇÃO. Tenho dito.

 

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