CARTA A UM PEQUENO DEUS

Para meus filhos Alfredo Neto, Daniel e Frederick, e para meu cunhado Breno, que descobre a dor e a delícia de ser pai

Olha, eu não desconfio de que imensidão tu vieste! Mas, chegaste. Etéreo, a princípio, como deve ser próprio dos deuses, depois uma presença viva, encantada em corpo e alma.

Desde cedo percebemos tua inquietude, expressa nos espasmos com que atiçavas a nave-mãe que te transportou por nove meses. Longo tempo aquele, cheio de sustos na madrugada, ida a médicos, desejos estranhos (me diga, faz sentido querer um pedaço de abacaxi às duas da madrugada?).

No entanto, mesmo com os incômodos e as dores, ela parecia mais bela, humana e feliz. De vez em quando acariciava o ventre e eu imagino que tu rias, lá no aconchego da nave-mãe, pequeno deus. Agora, uma coisa: devia haver alguém que escrevesse um manual de instruções a teu respeito, para quando tu viesses, só assim não ficaríamos surpresos, abobalhados com cada pequeno gesto teu.

Quando vieste em forma de gente, pouco importa se era abril, maio, dezembro, primavera, verão, outono, inverno, tudo que eu ouvia era meu coração apequenado, sofrente, diante da sala de cirurgia. Depois ouvi o teu choro e descobri que os deuses também choram, e que eu, pequeno humano, devia fazer o mesmo. Chorei.

Depois, como um pequeno deus, foste tomando a forma de um rosto conhecido, um sorriso que eu já vira, uns gestos que eu lembrava – um dia olhei no espelho e me vi te vendo. Surpresa? Só se para os outros! Se eras um pequeno deus em carne, ossatura e alma, como é que não terias tal dom?

Depois vieram as longas noites te olhando no berço, ninando na paz e na doença, embevecidos ou preocupados, eu e a nave-mãe. Como naquela vez em que foste ao hospital, eu cheguei de mansinho, peguei a tua mão e quase chorei. De repente a senti forte, apertando meus dedos, um sorriso discreto nos lábios, e vi que tua força era maior que a nossa, pequeno deus.

Hoje, sentei-me à mesa da sala e resolvi escrever estas coisas ao acaso das palavras para me indagar de ti e de nossa felicidade em tê-lo alegre, ridente, pequeno deus de nossas alegrias. Talvez encontres algum dia esta carta – a mancha escura, sabe, foram lágrimas vertidas enquanto escrevia e imaginava o quanto foste um sonho, presença etérea, depois corporificada em gente, pequeno deus, meu filho.

CRÔNICA DO LIVRO “PORANDUBAS” (CRÔNICAS).

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